Comentário – Lição 06

Ansioso para perdoar (Jonas)

Luiz Gustavo S. Assis é formado em teologia pelo Unasp Campus 2 e atualmente exerce a função de pastor distrital no bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre, RS.

Ampliação

Jonas é, sem dúvida, o mais conhecido de todos os profetas menores. Ainda não conheci nenhuma criança que soubesse a história de Oseias ou Amós, mas é difícil encontrar uma criança cristã que não esteja de alguma forma familiarizada com a história de Jonas. Mas isso não significa que o livro de Jonas seja uma história infantil. Na verdade, nós adultos podemos ter profundos momentos de meditação a partir das situações descritas ao longo dos quatro capítulos do livro. Tópicos como perdão, justiça, obediência, onisciência divina e arrependimento podem facilmente ser abordados a partir da história de Jonas. Como disse o autor e filósofo cristão Ravi Zacharias, “gastamos tempo demais tentando entender o que aconteceu dentro do grande peixe e nos esquemos de pensar no que estava acontecendo dentro do coração de Jonas”.

1. Conhecendo o livro

Existem aqueles que afirmam que o livro de Jonas não passa de uma alegoria ou uma simples lenda. No entanto, existem alguns elementos na própria narrativa que sugerem fortemente que se trata de uma história real. Vejamos alguns deles brevemente:

a) PersonagemJonas é mencionado em 2 Reis 14:25, mostrando que ele era profeta no reino de Israel e exerceu seu ministério profético em meados do 8º século a.C., e foi contemporâneo de outros profetas como Oseias e Amós. Estamos diante de um personagem histórico. O curioso é que Jonas se tornou conhecido por ser um profeta de Deus para uma nação pagã, a Assíria.

b) Aspectos literáriosA forma introdutória do livro: “Veio a Palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo” (v. 1) é importante indicativo da intenção do seu autor. Trata-se da mesma forma introdutória de livros como Oseias, Joel, Miqueias, Sofonias, Ageu e Zacarias. Além disso, a primeira palavra hebraica do livro “vayehi” (‘e aconteceu’ ou ‘e veio’) é a mesma do começo de outros livros históricos (cf. Js 1:1; Jz 1:1; Rt 1:1; 1Sm 1:1; 2Sm 1:1; Ed 1:1; Et 1:1). Como cristãos, aceitamos a historicidade de livros como Josué, Rute, 1 Samuel e 2 Samuel. Por que imaginar que o livro de Jonas seria diferente?

c) Ambiente históricoO falecido especialista em documentos assírios Donald J. Wiseman, publicou um fascinante artigo em 1979 demonstrando como as informações sobre Nínive no livro de Jonas são compatíveis com as informações sobre seu tamanho, sua população e seus costumes nos tabletes cuneiformes e também nas escavações arqueológicas feitas ali desde a década de 1840.

Foi A. W. Tozer quem disse certa vez: “Dê-me Gênesis 1:1, e o restante da Bíblia não será nenhum problema para mim”. Se as primeiras frases das Escrituras são verdadeiras – e acredito que são – não deveríamos ficar incomodados com uma história em que um homem é engolido por um grande peixe e depois de passar três dias lá dentro, sai e cumpre sua missão profética! Permita-me mencionar algo mais sobre isso. Existe uma antiga e importante igreja em Chipre que abriga os ossos de um importante personagem bíblico. Nessa igreja pode-se ler uma inscrição: “Lazáro, duas vezes morto, amigo de Jesus”. Para Aquele que é capaz de ressuscitar uma pessoa morta há quatro dias, não vejo como problema manter alguém por três dias dentro de um animal marinho.

2. A mensagem de Jonas

Um esboço básico do livro de Jonas pode ser apresentado da seguinte forma:

Jonas foge de Deus (1–2)

a) O chamado de Jonas e a fuga (1:1-3)

b) A tempestade (1:4-6)

c) A desobediência de Jonas revelada (1:7-10)

d) A punição de Jonas e seu livramento (1:11–2:1; 2:10)

e) A oração de Jonas (2:2-9)

Jonas relutantemente cumpre sua missão (3-4)

a) A resposta de Jonas (3:1-4)

b) A resposta dos ninivitas (3:5-9)

c) O arrependimento dos ninivitas (3:10–4:4)

d) O diálogo entre Deus e Jonas (4:5-11)

Ao longo desses quatro capítulos, três temas saltam imediatamente de suas páginas, dois dos quais relacionados diretamente com Deus e um relacionado conosco:

a) Soberania divina: Deus foi quem comandou tudo nessa história. Ele controla a vida, a natureza e todas as coisas (cf. 1:4, 9, 15, 17; 2:10; 4:6-8). Nesse livro, Deus Se mostra preocupado com todos: Jonas, os marinheiros, os ninivitas e até mesmo os animais (cf. 4:11). Longe de ser Alguém passivo, Seu plano estava em execução para os moradores daquela “grande cidade”.

b) Compaixão e misericórdia de DeusPara aqueles que conhecem um pouco da história do povo assírio, ver Deus preocupado em oferecer a eles uma “segunda chance” chega a ser chocante. Veja, por exemplo, a parte de um documento do rei assírio Assurbanipal II, que reinou entre os anos 884-859 a.C.:

“Eu construí uma coluna contra a cidade deles, arranquei a pele de todos os chefes que se revoltaram contra [mim] e cobri a coluna com a pele deles. Emparedei alguns dentro da coluna, empalei alguns em estacas na coluna, e amarrei outros em estacas ao redor da coluna. […] Cortei os braços e pernas dos oficiais, dos oficiais reais que se rebelaram. […] Queimei muitos cativos de entre eles a fogo e levei muitos cativos. Cortei o nariz, as orelhas e os dedos de alguns; furei os olhos de muitos. Fiz uma coluna com os vivos e outra de cabeças, e amarrei suas cabeças aos troncos das árvores ao redor da cidade. Queimei no fogo seus jovens e servos. Capturei vinte homens vivos e os emparedei nas paredes de seu palácio.”

Esse não parece ser o tipo de pessoa que estaríamos dispostos a perdoar. No entanto, de maneira estranha para nós, o amor de Deus consegue ser revelado para homens como Ashurbanipal II e outros tantos! Diante dessa manifestação de amor, Deus esperava o arrependimento dos ninivitas (cf. 3:10; 4:2, 11). Como pode ser visto em 4:1, Jonas estava realmente indignado (em hebraico, esse verso tem uma força muito maior do que em português) por Deus ter essa característica de perdoador. Quem sabe também podemos ter o mesmo sentimento quando vemos alguém com um histórico tão negativo sendo batizado e sendo abençoado por Deus de maneira especial. Como seres humanos pecadores, podemos nos sentir como Jonas. Seria bom ter em mente a parábola do credor imcompassivo (cf. Mt 18:23-35). Nós somos aqueles que temos uma dívida impagável com o Rei, mas que foi perdoada por Ele. Ficar irritados com as “pequenas dívidas” dos outros é um tanto insensato. Longe de ser um ensinamento fácil, o amor de Deus é um dos tópicos mais profundos, senão o mais profundo de toda a Escritura.

Falando sobre isso, Ellen G. White escreveu:

“Todo o amor paternal que veio de geração em geração através do coração humano, toda fonte de ternura que se abriu na alma do homem, não passam de tênue riacho em comparação com o ilimitado oceano, quando postos ao lado do infinito e inesgotável amor de Deus. A língua não o pode expressar, nem a pena é capaz de o descrever. Podemos meditar nele todos os dias de nossa vida; podemos esquadrinhar diligentemente as Escrituras a fim de compreendê-lo; podemos reunir toda faculdade e poder a nós concedidos por Deus, no esforço de compreender o amor e a compaixão do Pai celestial; e todavia, existe ainda um infinito para além. Podemos estudar por séculos esse amor; não obstante jamais poderemos compreender plenamente a extensão e a largura, a profundidade e a altura do amor de Deus em dar Seu Filho para morrer pelo mundo. A própria eternidade nunca o poderá bem revelar” (Testemuhos Seletos, v. 2, p. 337)

Podemos apreciar algumas fagulhas desse amor na história de Jonas!

c) MissãoSe os dois primeiros assuntos tinham relação com Deus, este último tem a ver conosco. Deus aproveitou a fragilizada nação assíria durante a péssima administração do rei Ashur-Dan III (Cerca de 773-756 a.C.) para ofercer uma mensagem de salvação. Os assírios vinham de derrotas militares, problemas diplomáticos, períodos de fome, um eclipse ocorrido em 15 de junho de 763 a.C. – que era interpretado como um mal presságio – e outros problemas. A mensagem de Jonas era um convite para a restauração da nação. De certa forma, esse livro é uma antecipação da ordem de Cristo para pregar o evangelho para todas as nações (cf. Mt 28:18-20; Jn 1:1-2; 3:1-2), até mesmo para aqueles que se opõem a ela (4:11; Mt 5:44). No coração do evangelho há uma mensagem de reconciliação (cf. 2Co 5:20). A maldade trará punição (Jn 1–2; 3:4), mas “a salvação vem do Senhor” (Jn 2:9).

3. A relevância da mensagem de Jonas

Podemos extrair algumas lições práticas do livro de Jonas para aplicar à nossa vida:

a) Jonas e sua audiência: A responsabilidade de transmitir uma mensagem divina é algo grandioso. No entanto, Jonas tinha alguns motivos que o levaram a fugir. Particularmente, me identifico com esse ponto da história. Na minha primeira campanha de colportagem em São José dos Pinhais, PR, em 2002, lembro-me de ter passado na frente de uma residência repleta de pessoas. Era véspera de Natal e eu não desejava incomodá-las oferecendo alguns livros e uma oração no encerramento da visita. Em meu íntimo, a timidez falou mais alto e passei adiante. Dois dias depois, notei um grande movimento naquela mesma casa. Para minha triste surpresa, os cinco membros daquela família se haviam envolvido num acidente no dia anterior e todos perderam a vida […] Ao olhar para trás, consigo discernir alguns pensamentos relacionados com aquele dia. Não creio que Deus permitiria que toda uma família morresse sem ter tido ao menos uma oportunidade de reconciliação com Ele. Mas, ao mesmo tempo, eu fugi de minha responsabilidade como Seu mensageiro. Hoje, minha timidez ainda incomoda, mas sabendo que outros tantos que estão sob minha responsabilidade podem morrer, esforço-me para honrar meu compromisso, como cristão, de proclamar a mensagem da cruz.

b) Jonas e sua mensagem: Jonas conhecia muito bem sua teologia. Em Jonas 4:2, ele cita uma conhecida passagem de Êxodo 34:6-7. Doutrina não era o problema do profeta. Mas, como disse alguém, a jornada mais longa para se fazer é aquela entre a mente e o coração. Conhecimento bíblico muitas vezes não é o suficiente. Precisamos nos identificar com a mensagem que portamos. Quando se avalia os motivos pelos quais os jovens abandonam a igreja, não se trata apenas de dificuldades intelectuais não respondidas pelo pastor ou outro líder da igreja. Muitas vezes, trata-se da hipocrisia notável em muitos membros da congregação. Homens e mulheres com um discurso, mas vivendo algo bem diferente. Alerte sua unidade da Escola Sabatina sobre esse perigo.

c) Jonas e seu conforto: Em vez de se dirigir a Nínive, no leste, Jonas foi para Társis, em direção oposta. É impossível determinar com certeza onde essa cidade ficava. As evidências disponíveis até o momento apontam Espanha, Cartago (no norte da África), e Sardenha como possíveis locais da antiga Társis. O falecido assiriólogo Cyrus Gordon defendia a identificação desse local como a Espanha. De acordo com ele, Társis era um paraíso terrestre. Em vez de Jonas exercer sua função profética, o que vemos aqui é o profeta fugindo da responsabilidade e buscando seu conforto. Não seria isso um forte alerta para nós hoje? É comum vermos um convite para o envolvimento missionário na igreja e alguns poucos se disponibilizando. É lógico que nem todos têm o mesmo dom de dar estudos bíblicos ou pregar, mas o que é tão importante a ponto de deixar nossos imãos e irmãs ocupados demais para se envolverem com a pregação do evangelho? Como Jonas, muitos podem estar em busca do conforto.

Para uma introdução às principais descobertas arqueológicas relacionadas com persongens, locais e eventos, ver Gerald A. Klingbeil, As pedras ainda clamam, disponível em: http://dialogue.adventist.org/articles/14_1_klingbeil_p.htm.
Jo Ann Davidson, “Jonas: Lições de um profeta para os últimos dias”, em “O Futuro: A visão adventista dos últimos acontecimentos”, Alberto Timm, Amin Rodor, Vanderlei Dorneles (eds.), (Unaspress, 2004), p. 29. Davidson oferece outros argumentos literários que endossam a ideia da historicidade do relato de Jonas. Mencionamos apenas esses por questões relacionadas a espaço. Na verdade, é importante lembrar que Jo Ann Davidson escreveu uma lição da Escola Sabatina sobre Jonas, em 2003.
Donald J. Wiseman, Jonah’s Nineveh, in Tyndale Bulletin 30 (1979), p. 29-52. Uma das grandes contribuições deste artigo, originalmente apresentado em forma de palestra em 1977, é a possibilidade do arrependimento nacional registrado no terceiro capítulo do livro de Jonas estar relacionada com um terremoto que ocorreu durante o governo do rei assírio Ashur-Dan, que foi contemporâneo de Jeroboão II, rei de Israel, isto é, na mesma época do ministério do profeta Jonas (cf. 2Rs 14:25). Diversos documentos mesopotâmicos falam de como eventos como terremotos, eclipses e períodos de fome, eram interpretados como presságios negativos das divindades e, portanto, eram lembretes da débil condição espiritual da nação. Por que não imaginarmos Deus utilizando essa mentalidade e o terremoto referido anteriormente para despertar o interesse dos ninivitas?
Geoffrey T. Bull, The City and the Sigh: An Interpretation of the Book of Jonah, p. 109, 110.
NIV Archaeological Study Bible, p. 1469.

Vídeos Introdução – Esboço da Lição “Busque ao Senhor e Viva” (aqui).

Esboço da Lição 6 – Busque o Senhor e viva! (Amós) (aqui).

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