Comentário – Lição 02

Amor e julgamento: o dilema de Deus (Oseias)

Luiz Gustavo S. Assis é formado em teologia pelo Unasp Campus 2 e atualmente exerce a função de pastor distrital no bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre, RS.

Introdução

Nos parágrafos a seguir, você lerá sobre a inconstância de Israel, as demonstrações do amor divino a essa nação e o juízo que veio sobre ela. A última parte deste comentário dedica-se a apresentar meios de aplicação deste conteúdo na vida dos alunos de sua unidade de Escola Sabatina e igreja.

Os antigos gregos utilizavam um termo para descrever o interesse dos seus deuses pela humanidade. Era a palavra apatheia, que, como você já deve ter percebido, significa apatia. Deuses apáticos faziam parte do panteão de Zeus e Hera, em Atenas. Isso podia ser algo comum no país dos grandes filósofos, mas não havia (e não há) espaço para apatia quando se trata do Deus de Israel. No comentário da lição anterior, vimos como o profeta Oseias descreve o carinho e o amor de Deus pelo Seu povo através do seu casamento com a infiel Gômer. Assim como Gômer saiu em busca de satisfação com outros homens, Israel foi em busca de satisfação e sentido com deuses pagãos.

Mas o adultério de Israel não se limitou apenas à esfera espiritual. O profeta se refere constantemente a Israel como Efraim, justamente o centro da idolatria do reino do Norte. Em Oseias 7:11, é dito que Efraim é “como uma pomba enganada, sem entendimento; chamam o Egito e vão para a Assíria”. Em vez de terem confiado política e economicamente em Deus, os israelitas contemporâneos de Oseias oscilavam em sua confiança nos monarcas egípcios e assírios. Apenas a título de ilustração, temos um fascinante achado arqueológico que ilustra muito bem esse comportamento. Em 1846 o arqueólogo britânico Henry Layard encontrou nas ruínas de Calah, antiga Ninrode, importante cidade do antigo império assírio, um documento comemorativo (também chamado de estela) do rei Salmanasar III. Nele existem diversos relevos descrevendo reis e monarcas de diversos países homenageando esse governante assírio. Curiosamente, um dos relevos descreve um homem em atitude de adoração e logo abaixo uma inscrição em cuneiforme assírio: “Tributo de Jeú […] Prata, ouro, vasos de prata… cetros para a mão do rei [e] dardos, [Salmanasar] recebeu dele.” O homem prostrado diante de Salmanasar III não era ninguém menos que um rei de Israel (2Rs 10:31). Não se trata de algo que aconteceu nos dias de Oseias, porém, trata-se de uma importante descoberta que lança luz na inconstância da fé do reino de Israel. Nas palavras do falecido erudito adventista Siegfried J. Schwantes, o que Israel “mais necessitava não era de alianças com potências estrangeiras, mas de uma renovada confiança em Deus”.

De maneira mais direta, não seria exagero dizer que, para o povo, Deus não era mais suficiente em nenhum aspecto do cotidiano israelita. A subsistência era atribuída a Baal, a segurança da nação oscilava entre assírios e egípcios e a vida religiosa também estava entregue à soberania de Baal. Um deus apático não se importaria com esse adultério espiritual. Em contrapartida, o Deus bíblico é cheio de emoções e estaria disposto a tudo para lidar com essa traição, mesmo correndo o risco de ser rejeitado.

Ampliação

O amor de Deus em Oseias

Alguns pensam que o Deus bíblico sofre de transtorno bipolar nas Escrituras. No Antigo Testamento Ele é severo, ordena a destruição de povos cananeus e utiliza a natureza como agente de punição. Já no Novo Testamento, Seu lado amoroso e terno é revelado através das narrativas e reflexões escritas pelos primeiros seguidores de Jesus. Esse tipo de distorção acontece quando se tem uma equivocada noção de amor e de justiça. Ambos podem ser vistos coexistindo em Oseias sem nenhum tipo de contradição. Apresento a seguir algumas características do amor divino no livro de Oseias:

O amor de Deus é imerecido: Isso pode ser visto ao longo da obra e, de maneira mais direta, nos constantes pedidos para Israel voltar ao Senhor (p. ex., 6:1; 14:2). O verbo hebraico traduzido por voltar em nossas versões em português é shub, sendo também utilizado em diversos textos bíblicos com o sentido de arrependimento. Na verdade, arrependimento é isto: descobrir que está indo na direção errada e voltar para o caminho certo. Um Deus apático não demonstraria tanto interesse para que Seu povo voltasse a Ele.
Acrescento uma poderosa declaração do profeta Jeremias, quem sabe influenciado pelos escritos de Oseias, ao se valer da metáfora do adultério espiritual e demonstrar o imerecido amor de Deus:

“Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura, aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso de toda aquela terra? Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para Mim, diz o Senhor” (Jr 3:1). A declaração se refere a Deuteronômio 24:1-4, que afirmava que uma mulher repudiada que se casasse uma segunda vez, não poderia de forma alguma, novamente se casar com o primeiro marido. Mesmo diante disso, Deus ainda estava disposto a receber Judá (nos dias de Jeremias), mesmo depois de a nação ter se prostituído com diversos amantes (v. 1), uma referência aos deuses do paganismo.

O amor de Deus é necessário: Mencionamos este item no comentário da lição anterior. Se podemos contemplar os estragos emocionais na vida de alguém que não recebeu amor dos pais ou familiares ao longo de sua vida, o que dizer de uma nação que virou as costas para Seu mantenedor e provedor? A degeneração moral envolvendo os cultos pagãos e o cotidiano da nação de Israel eram os sintomas de que o tão necessário amor divino não estava sendo mais recebido no coração dos seus habitantes.

O amor de Deus é suficiente: G. K. Chersterton, um filósofo católico do século XIX, disse certa vez que a tragédia da vida não é deixar de crer em Deus, mas acabar acreditando em qualquer coisa. Baal e Ashtarte não tinham significado nenhum para a história do surgimento e preservação do povo de Israel (Os 11). No entanto, essas divindades despertavam o senso de adoração dos israelitas. O amor de Deus era suficiente para preencher o vazio do coração do Seu povo e é suficiente para preencher o nosso coração. Na palavras de Paulo, somos completos em Jesus (Cl 2:10).

O que vimos até agora é a manifestação do amor de Deus para com Israel num período extremamente conturbado na relação entre ambos. Mas creio ser importante buscarmos uma definição do amor, pelo menos o tipo de amor que seres humanos deveriam demonstrar para com Deus. O filósofo e autor cristão Ravi Zacharias o definiu nos seguintes termos:

“Amor é um comprometimento que será testado nas áreas mais vulneráveis da espiritualidade, um comprometimento que forçará você a fazer algumas escolhas difíceis. É um comprometimento que demanda lidar com a luxúria, ganância, orgulho, poder, desejo de controle, temperamento, paciência, e cada área de tentação de que a Bíblia claramente fala a respeito. É algo que demanda a qualidade de comprometimento que Jesus demonstrou em Seu relacionamento conosco.”

Amor é muito mais do que mero sentimentalismo. Envolve comprometimento, e isso as dez tribos que compunham o reino do norte não tiveram com Deus. Será que estamos sendo melhores do que eles?


A justiça de Deus em Oseias

Recentemente, foi lançado o livro “Love Wins”, escrito por um pastor americano chamado Rob Bell, no Brasil sob o título “O Amor Vence” (Sextante). Bell causou grande comoção entre os evangélicos mais tradicionais já que ele sugere na sua obra que o inferno não existe. Como adventista, posso concordar com essa afirmação. Não acreditamos na existência de um local de tormento que dure para sempre. Mas não podemos aceitar a sugestão de Bell de que não haverá punição para aqueles que rejeitaram a Deus. Na verdade, o nome desse ensinamento é universalismo, e nada mais é do que dizer que todos serão salvos. Por fim, o amor vencerá!

Recentemente, Rob Bell foi entrevistado pela Revista Veja (novembro de 2012), e a última pergunta foi perturbadora. Hitler está no Céu? O entrevistado saiu pela tangente sem dar uma resposta satisfatória. A graça de Cristo poderia resgatar o ditador alemão de tamanho abismo tenebroso causado pelo pecado? Sim. Tendo a graça de Cristo sido recusada, Deus deixaria impune aquele que foi responsável por uma das cicatrizes mais terríveis na história da humanidade? Não! Uma resposta diferente representaria um sério desafio para específicas passagens no livro do Apocalipse sobre os ímpios e sobre o lago de fogo (Ap 20).

Com Israel não foi diferente. O amor de Deus estava sendo oferecido, mas foi rejeitado. Eram os israelitas que estavam perdendo algo precioso. Enfeitiçados pelo paganismo, só havia um modo para despertá-los: Um juízo. Repetidas vezes Deus falou sobre esse evento por meio de Oseias. Destaco um exemplo que pode ser lido em 5:14-15. Deus seria um leão para Israel, e um leãozinho para Judá. Um leão faminto despedaça sua presa. Curiosamente, um animal típico nas regiões do império assírio era um leão. Os relevos dos palácios assírios estavam repletos de figuras de leões. Deus estava dizendo que a Assíria estava vindo contra Efraim (Israel) e os despedaçaria. Em 722 a.C., Samaria, capital do reino de Israel conheceu seu fim, ao cair nas mãos dos impiedosos e sanguinários soldados assírios. O que Judá deveria esperar de um leãozinho? Não há muito o que temer de um filhote de leão. Mas após se tornar um leão adulto, ele se torna assustador. Na época em que Oseias escreveu isso, Babilônia não era relevante para o cenário mundial e não representava uma ameaça para o reino de Judá. Mas chegaria o tempo em que o poder babilônico cresceria e causaria grande destruição para os judeus. De fato, em 586 a.C., o leãozinho dos dias de Oseias já era um poderoso leão, e arrasou completamente Jerusalém e o restante do reino. Nabucodonosor e sua tropa babilônica destruíram completamente o reino de Judá.

Esse juízo foi um evento definitivo sobre Israel? Não. A história poderia ter sido bem diferente, caso os israelitas tivessem abandonado seus ídolos e se voltado ao Senhor de todo coração. Em Oseias 11:8-9, Deus expressou Seu desejo de poupar Israel do Seu juízo. “Como te faria como a Admá? Como fazer-te um Zeboim?” Esses eram nomes de cidades que ficavam na mesma região de Sodoma e Gomorra e também foram destruídas naquele incidente envolvendo a família de Ló (Gn 19). “Não executarei o furor da Minha ira; não tornarei para destruir a Efraim, porque Eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; não voltarei em ira”. Apesar de terem ouvido isso, os israelitas não se arrependeram e o fim da história já foi mencionado anteriormente.

Aplicação

O que fazer com todas essas informações vindas de um livro tão antigo como o de Oseias? Vejamos algumas formas de aplicar a mensagem desse profeta em nossa vida:

Evitando o adultério espiritual:

– Ninguém fracassa da noite para o dia: Foi Salomão que reintroduziu a idolatria no território de Israel e isso por volta do ano 950 a.C. Depois disso, a espiritualidade da nação sempre oscilou entre a devoção a Deus e aos ídolos. Levou mais de 200 anos até Israel sentir na pele as consequências do seu grave pecado contra o Senhor. Lendo o Salmo 1:1, vemos claramente a dinâmica do pecado. “Bem-aventurado o homem que não anda no caminho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”. Andar, deter-se, assentar-se. Há uma progressão aqui. O mesmo pode acontecer em nosso relacionamento com Deus. É necessário que tomemos cuidado se estamos nos detendo para ler, ver e ouvir algo perigoso para nossa espiritualidade. Quando isso acontece, é bem provável que sejamos seduzidos pelo falso brilho do pecado.

– Esquecimento de Deus na fartura (13:6): Pelo fato de Israel estar desfrutando de um momento de prosperidade, a tendência era crer que o bem-estar e a fartura de alguns poucos grupos da nação fossem consequências do esforço e habilidade administrativa de seus governantes, não da atuação divina. Isso pode ser visto no panorama mundial das nações. Onde o evangelho está em decadência? Europa, um continente marcado pelo ar de superioridade contra os demais. Onde o evangelho está em maior crescimento? Na China, embora no fim dos anos 1960, Mao Tse Tung tenha afirmado que havia destruído o cristianismo para sempre. Hoje, calcula-se mais de 200 milhões de cristãos naquela localidade. O mesmo poderia ser dito de países como Índia, Camboja e Afeganistão. Para aqueles que leem em inglês, acessem o site http://www.operationworld.org/ e vejam quais são os desafios missionários de todos os países do mundo.

– O amor de Efraim e Judá era passageiro: “Vosso amor é como a nuvem da manhã e como orvalho da madrugada, que cedo passa” (6:4). Não importa quantos anos de adventismo tenhamos. Se diariamente não tiramos tempo para nos relacionarmos com Deus de maneira profunda, corremos sério risco de cometer o adultério espiritual, assim como Israel e Judá. Quando um casal não separa tempo para estar juntos, isso os torna mais vulneráveis. É necessário investir tempo para que um casamento funcione e o mesmo é verdade com nosso relacionamento com Deus.

– Como desenvolver um relacionamento com Deus?

– Separe um momento do dia para sua oração e leitura da Bíblia. Se você não separar esse momento com muita disciplina, há grandes chances de você desanimar em menos de uma semana. Mas se persisitir, depois de aproximadamente 20 dias, esse momento será algo natural. Sem esse momento, a vida espiritual está fadada ao fracasso. Como disse Charles Spurgeon: “Orar é subir com asas de águia acima das nuvens e chegar ao Céu claro, habitado por Deus. É entrar na casa do tesouro do Senhor e fartar-se de uma fonte inesgotável.”

– Tenha alguém a quem ‘prestar contas’ sobre seu progresso espiritual. Você deve ter alguém com quem se sente à vontade para abrir o coração e falar de suas tentações e suas leituras bíblicas. Esse alguém deve ser experiente. Vocês podem se encontrar semanal ou quinzenalmente. Para aqueles que moram longe, telefone, email, ou skype são ferramentas úteis. Você deve estar pensando: “Por que isso é importante?” Se você se lembra bem, Saul tinha Samuel para corrigir seu foco, assim como Davi tinha o profeta Natã que o repreendeu após seu pecado. E o que dizer de Salomão? Ele talvez não tivesse ou não aceitasse a ajuda de ninguém, e quem sabe tenha sido por isso que sua vida trouxe tanto impacto negativo para a nação. Para que não caiamos no mesmo erro, tenhamos um(a) mentor(a) na nossa caminhada espiritual.

– Leia biografias de homens e mulheres que demonstraram profunda devoção a Deus e Sua Palavra. Obras como “Mil Cairão ao Teu Lado” e “Ainda que Caiam os Céus”, ambas da CPB, são inspiradoras e nos levam a um comprometimento maior com nosso Senhor.

1. Ravi Zacharias, I, Isaac, Take Thee, Rebekah (Thomas Nelson, 2004). Toda essa obra aborda a perspectiva cristã do amor, e consequentemente do casamento.

2. Também poderíamos mencionar o texto de 13:7-8. Deus afirmou que atacaria Israel como um leão, como um leopardo e como uma ursa. Todos esses animais aparecem juntos no livro de Daniel, no capítulo 7. É muito provável que Deus tenha utilizado algo conhecido para Daniel (esse texto do profeta Oseias) e apresentado uma visão dos poderes opressores do Seu povo ao longo dos séculos, usando-os como símbolos de nações opressoras. No entanto, a ordem ali é diferente: leão (Babilônia), urso (medos e persas) e leopardo (Grécia).

Vídeos Introdução – Esboço da Lição “Busque ao Senhor e Viva” (aqui).

Esboço da Lição 2 – Amor e julgamento: o dilema de Deus (Oseias) (aqui).

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