A Revolta do Shortinho e a Geração Z

[…] A notícia que mais teve respaldo e gerou memes e discussões nas redes sociais (e, portanto, nos portais de notícia) a respeito da educação brasileira nesta semana: alunas do colégio Anchieta, um dos mais antigos (e caros) de Porto Alegre, fizeram uma mobilização, com ato, demonstração e petição online, pelo direito de usar shortinho quando forem para as aulas. O colégio é gerido pela Igreja. Os pais de alunos (e os alunos que desejam ter aquela educação) assinam um contrato que prevê as normas de conduta do colégio. Todas as salas de aula possuem ar condicionado. Não mais que de repente, as alunas se revoltam com o código de vestimenta sugerido por 99 em cada 100 escolas e exigem um passe livre para se vestirem “como quiserem”. Dez meninos também aderiram à campanha, e fizeram também um ato de shortinho em apoio às meninas de shortinho, o que foi fato sobejante para nova notícia. Seu argumento era de que “isso mostra que por trás de toda questão do shorts tem muitas outras, como a luta pela igualdade de gênero e os direitos das pessoas, em usar o que bem entenderem”. Não foram vistos meninos usando fio-dental no cofrinho em apoio às meninas, mas talvez não se deva esperar que isso não aconteça.

As moças das pernocas de fora ganharam o noticiário nacional. A merenda às vezes é comentada en passant. O resultado pífio em Português e Matemática, praticamente nunca.

O evento das pernas, chamado de “Vai ter shortinho, sim”, disfarça pouco em sua página o seu viés político. O Canal da Direita mostrou que a principal articuladora do grupo faz parte do Juntos!, o “coletivo” de atuação pré-adolescente do PSOL, e atuou com afinco na campanha de Luciana Genro. Por que isso não surpreende ninguém, e por que há a necessidade de sempre haver um partido socialista em qualquer algazarra e ziriguidum por mero prazer neste país?

O linguajar do evento é de um pobrismo repapagaiador de todos os clichês que possam caber em um cartaz e num par de pernas juvenis. Fala-se, obviamente, em “machismo”, em “respeito” a roupas (um conceito difícil de ser trabalhado pela metafísica ocidental), em não culpar as mulheres por estupros, em dizer que se alguém deseja as pernas de uma mulher, é um pensamento “machista”.

Já analisamos como esses pensamentos prontos são pré-linguísticos, símbolos de obediência imediata no falar corrente de uma época (se a palavra “machismo” assusta, basta-se pensar em “nazismo”, “câncer” ou “ditadura”, ou em palavras que já tiveram peso semelhante no passado, como “comunismo”, “aids” ou “lepra”).

Se a moda suprema, a forte corrente a levar a multidão irracionalmente hoje é o feminismo, apenas a ideia de associar algo a feminismo gera adesão imediata e pré-consciente, tal como associar qualquer coisa a machismo torna aquilo tão execrável que qualquer forma de repúdio, a mais revolucionária, irrefletida, violenta ou desequilibrada se torna válida, justa e desejável – os argumentos virão a posteriori.

É este hoje o grande dilema do Ocidente: não mais enfrentar o Exército Vermelho e seus estupros, não ser um dos povos europeus ou americanos a enfrentar o nazismo mesmo não sendo judeus, não enfrentar fome, frio terrível, derrubar lenha, caçar o próprio alimento, enfrentar bárbaros e bandoleiros. Somos já uma civilização assentada – tão assentada e tão opulenta com a produção de riqueza capitalista para as massas que já ignoramos os fundamentos dessa própria civilização. Cremos que tudo o que é civilizacional é natural – a geladeira, o alimento pronto, o ar condicionado, os prédios, a internet, a polícia e as viagens transcontinentais.

Somos o que Ortega y Gasset, no indispensável A Rebelião das Massas, chama de homem-massa: homens divorciados de alguma noção de continuidade histórica que, independentemente de sua “classe” social, acreditam que um computador ou um carro são objetos da natureza que surgem das árvores, e seu grande heroísmo é apenas exigi-los de alguém.

O homem-massa é, por definição, um ser urbano, das cidades cheias, apinhadas. É nelas em que a civilização atinge seu zênite: há não apenas casas e prédios, mas shoppings, museus, escolas, policiais e toda uma infraestrutura desenhada por outros homens para satisfazer e deleitar seus moradores – o que Olivier Mongin já tão bem definiu em seu ensaio A Condição Urbana.

Sem nenhuma aventura violenta cotidiana, exigindo ritos de passagem e valores como virilidade e força física a separar futuros sobreviventes das presas fáceis do ambiente, resta ao homem-massa, que pode ser um sindicalista ou um médico, um intelectual doutor ou meninas adolescentes de shortinho, apenas sair exigindo “direitos” e vociferando slogans feitos para serem repetidos roboticamente em massa (anteriormente de megafones, hoje de blogs, páginas de Facebook e coletivos do PSOL).

Mesmo um pobre urbano hoje desfruta de luxos, confortos e estofamentos da civilização que um rei ou nobre de poucos séculos atrás não poderia nem imaginar (estude-se a história das privadas).

Para disfarçar esse comodismo, o herói adolescente e o intelectual de 140 caracteres fazem analogias, considerando que o uniforme do colégio é o equivalente aos porões da ditadura, que fazer uma página na internet e receber xingamentos é equiparável a enfrentar as tropas nazistas, que segurar um cartaz e “exigir seus direitos” de usar uma roupa curta para paquerar os meninos num colégio caríssimo é o mesmo que vencer o Estado Islâmico.

E, rapidamente, passam a crer que a analogia não é mais analogia, mas que existem mesmo ditadores, nazistas e terroristas ao nosso redor, e esses carrascos é que impedem nosso hedonismo adolescente. Pergunte à Márcia Tiburi.

Essa é a tal “geração Z”, de que falou recentemente a revista Veja em sua capa: uma geração que não tem mais o que fazer. Não tem contra o que lutar. Não lhes falta nada em suas economias. Não são sequer feios, pobres ou “oprimidos” e “explorados”. É uma geração tão almofadada pela civilização que até quando caía de bicicleta ao redor da piscina no condomínio era curada com Merthiolate que não arde.

Que heroísmo, que conquista individual, que missão e vocação podem ter essas pós-crianças? O melhor é apelar para abstrações de definições escorregadias como “machismo”, e ter como causa, como Leitmotiv da primeira fama da vida, uma briguinha para poder mostrar as pernas e xingar de machista o colégio católico em que estudam e seus pais pagam uma fortuna para tal.

A geração Z é uma vida a passeio. Uma vida sem glórias além de conflitos tão profundos, existenciais e exigentes quanto os diálogos de Malhação. É apenas busca por prazer, sem ter nada com que se preocupar. Uma êta vida besta, meu Deus, que trata o hedonismo, o jardim de Epicuro e a banalidade como questão mais urgente da vida e da realidade.

É uma vida de luxo e conforto nunca antes vistos na história mundial, mas que precisa se escorar em bodes expiatórios como chamar de “imposição machista da sociedade patriarcal” a proibição de shortinhos curtos num ambiente escolar. Ou tanta macaqueação com “minorias” como transexuais (que não representam 1% da população). As escolas sem merenda, novamente, só merecem atenção quando forem geridas por adversários do PSOL.

A escola dos shortinhos é aquela caríssima, diferente das estatais caindo aos pedaços. É a escola onde essas filhas da elite estão por preparação para uma vida mais confortável ainda, como futuras advogadas, médicas, economistas. Nenhuma profissão com o “direito” de se vestir “como quiser”. A única profissão em que isso é liberado não é exatamente o sonho de nenhuma delas.

Tudo o que as abstrações do PSOL compradas pela geração Z (como mostra a Revolta do Shortinho, rigorosamente indiscerníveis dos conflitos profundos do elenco de Malhação) conseguem fazer é transformar uma birra adolescente, um detalhe chato da vida, numa discussão bizantina sobre “não se julgar o caráter pela roupa” ou as velhas e nonagenárias analogias com estupro.

A geração Z é a geração que ficou mais fanática do que nossas vovós. Com a proposta de “respeito”, só quer impor hedonismo oco de significado além de firula adolescente. Com a proposta de “diversidade”, só quer que todos pensem igualmente, sem discordância para não “ofender”. Com a proposta de “progresso”, só destrói tudo o que garante seu conforto em troca de um prazerzinho momentâneo, sem nunca atentar para o quanto fazem os pais chorarem no banho enquanto se tornam pessoas sem futuro.

Pior: ao crer ser revoltada e futurista, apenas repete um discurso comodista e mais cafona do que uma pochete. Ao crer provocar polêmica e discussão, apenas ativa tédio e bocejos. É a reprise do Mocotó.

(Senso Incomum)


Comentário de Marina Garner Assis:
“Interessante esse debate no ambiente escolar surgir na semana em que visitamos pela primeira vez uma escola no interior da Índia. Depois de dar aula em escolas no Brasil por quatro anos, só posso concluir o seguinte depois daquela manhã: somos mimados. Somos tão bombardeados com o conforto e a liberdade, que ela nos estraga. O que tanto nos vangloriamos no Ocidente é visto com reprovação no Oriente. Aqui, liberdade você ganha por mérito, não é um direito inerente. Enquanto crianças de 12 anos estão lutando pelo direito de usar um shortinho para mostrar as pernas precocemente depiladas e inadequadamente bombadas na academia, aqui na Índia meninas de 12 anos têm prazer de cobrir a cabeça durante as orações, e cobrir o corpo para que a única coisa valorizada seja o cérebro. Meninas e meninos vão para o colégio da forma como eles querem ir para o escritório daqui a alguns anos.

“Dou um motivo para você reclamar da educação brasileira, se é isso que precisamos. Nunca vi em minha vida crianças tão alegres, atenciosas e disciplinadas como aqui na Índia. Então, se é para reclamar, reclame que não somos mais como eles. Que não valorizamos a educação como deveríamos. Que não vemos a utilidade do professor, de um livro, de respeito, de disciplina, de conhecimento novo. Que colocamos roupagem política em questões que sustentem a nossa própria vaidade.“Você reclama de escolas denominacionais obrigarem a oração que, no fim das contas, é feita de qualquer jeito para que o momento tenso em que você escuta as crianças rindo durante uma conversa com Deus acabe logo? Pois aqui a oração é feita por todos, em alto e bom som, com um respeito invejável. Você reclama do uniforme exigido pela escola e faz de tudo para que, quem sabe com alguns cortes e coloração, ele seja um pouco mais aceitável para os seus padrões de moda? Pois aqui o uniforme é muitas vezes a única roupa decente que as crianças possuem. Você reclama de ter que ficar enfurnado dentro de uma sala de aula com cadeiras estofadas e ar condicionado? Pois aqui a sala é tão escura e a falta de luz tão comum ou é tão quente, que o melhor mesmo é sentar do lado de fora e escrever com o caderno no colo. Você, professor, reclama da sala dos professores ou da quantidade de alunos na turma? A maioria das turmas aqui tem mais de 60 alunos e a sala dos professores é preferencialmente uma mesa no pátio do colégio. Você reclama que a cantina da sua escola não pode vender Coca-Cola ou qualquer outro refrigerante, e a variedade se restringe apenas a pizza, sanduíches, xis, folheados, pasteis e chocolates e balas? Aqui o almoço é arroz, lentilha e pão. TODOS os dias. Você reclama de ter que ir pra escola todos os dias e prefere dar uma escapada para o shopping pra matar aula? Pois aqui os alunos matam aula também, mas é porque a família é tão pobre que precisa que os filhos trabalhem por alguns dias e não vão à aula. Você reclama que a autoridade do professor é desnecessária e que o ‘bom professor’ é aquele que deixa fazer bagunça e dá ‘aula livre’? Aqui, quando o professor entra, todos os alunos levantam de uma vez e o cumprimentam em uníssono, apenas sentando novamente quando é permitido. A aula, desse momento em diante, é preenchida com respeito e tranquilidade.

“Fique triste por você não poder usar shortinho, enquanto eu me lamento aqui por talvez nunca ver no Brasil o que eu vi na Índia.”

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Sobre Silvio L. Marcelino

Cristão (Adventista do Sétimo Dia). Tecnólogo em Marketing, Licenciado em História - Atualmente atua como Professor de História.
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