João 21: Por Que Foi Escrito?

Em outra ocasião tive a satisfação de realizar um estudo introdutório do Quarto Evangelho. As intenções do autor, os motivos e circunstâncias que guiaram a escrita do livro já foram tratados à parte, no dito ensaio. Meu interesse aqui é apenas tocar de leve o capítulo 21 do evangelho, que, para mim, trás algumas questões especiais, como: Seria ele um mero acréscimo de um autor diverso do discípulo amado, ou seria um apêndice feito pelo autor dos capítulos iniciais? E se vem da pena do discípulo amado, quais seriam suas verdadeiras motivações para sua escrita? De fato: se na verdade o Evangelho sofreu essa alteração depois a morte do autor sagrado, bem poderíamos imaginar que essa tradiçãonão seja legitimamente apostólica.  E assim, permaneceria aberta a questão de sua legitimidade, antiguidade e canonicidade.  Se de fato pudermos encontrar evidências de uma autoria apostólica para esse trecho do evangelho, isso certamente trará maior credibilidade não apenas para o livro como também o texto terá maior significado para a fé cristã tradicional.

Sei que para essas perguntas há uma diversidade de opiniões, sendo a maioria delas, meras especulações. Carlos Josaphat, em seu comentário, afirma que esse texto tem sido no decorrer dos tempos, um desafio à sagacidade dos exegetas.  Muitos o têm considerado uma interpolação, vinda de outro autor, diferente do discípulo amado. Teríamos desse modo, um anacronismo. De fato, algumas questões de cronologia dificultam uma posição diferente. Como entender essa seção como vinda das mãos do mesmo autor, sendo que este já havia de fato concluído sua narrativa, no capítulo anterior, conforme João 20:30-31? O final do capítulo 21 oferece a mesma similaridade de ideias (cf. 21:25).

 Os motivos da escrita, ao que parece se relacionam diretamente com o diálogo entre Jesus e Pedro, acerca do futuro do discípulo amado, conforme os vv. 23-24: “Respondeu-lhe Jesus: Se eu quiser que ele fique até que eu venha, que tens tu com isso? Segue-me tu. Divulgou-se entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém não disse que não morreria, mas: se eu quero que ele fique até que eu venha que tens tu com isso?”.

Uma hipótese que tem origem em Raymond Brown e que busca uma distinção de pelo menos quatro fases na grafia do evangelho, influenciará diretamente a perspectiva teológica e a autoria do capítulo 21. De acordo com ele, as quatro fases da redação do Quarto Evangelho seriam: 1) as tradições ligadas de forma direta ao discípulo amado,  2) uma edição de parte do material realizada pelos seus discípulos, 3)  algumas sínteses desse material pelo discípulo amado e 4) certas adições de material, como por exemplo, o capítulo 21, as quais teriam sido realizadas por um editor final, desconhecido para nós. Nesse capítulo, inclusive, há a menção a um grupo em torno do evangelho, no v. 24 (“nós sabemos”). Ali é uma comunidade que declara sua fé no testemunho do discípulo como sendo verdadeiro.

D. A. Carson cita uma exegese detalhada de mais de vinte palavras nesse capítulo, realizada por Rudolf Bultmann, o que levou o exegeta a declarar que elas certamente teriam vindo de um autor diferente do redator do capítulo 20. Günther Bornkamm o nomeia de “post scriptum de mão mais tardia”.  E embora também entenda que o autor seja um “punho estranho”, em relação aos demais capítulos, Georg W. Kümmel, por sua vez, não percebe uma distância muito acentuada entre o tempo da escrita do capítulo 21 com o do restante do evangelho. Para ele, o mais antigo manuscrito preservado já contém esse material. Então, seu tempo de redação seria possivelmente o segundo século, enquanto que os demais capítulos pertencessem ao século I, precisamente, aos anos 80-90. Porém, não explica nada acerca das motivações.

Oscar Cullmann também é daqueles que mantêm a opinião de que o autor do capítulo 21 se distingue claramente do discípulo amado (cf. v. 24), e por isso seria outro personagem.  De acordo com ele, os capítulos 1-20 teriam sido escrito pelo discípulo amado ao fim de sua vida. Porém, o capitulo 21 certamente teria sido adicionado por outro autor. Sobre as razões para o mesmo, ele afirma que este acréscimo tinha por finalidade esclarecer certas especulações em torno da morte do discípulo amado, e também realizar alguns retoques no corpo do evangelho. Desse modo, sua proposta descarta o capítulo 21 como sendo de autoria apostólica direta.

D. A. Carson, por outro lado, tem proposta diferente, e esclarece a questão das ditas especulações. Ele propõe que o Quarto Evangelho de fato já estava pronto antes da prisão de João na colônia romana em Patmos, que segundo a tradição, foi ocasionada por Domiciano, entre 81 e 96 AD. Sendo que Nerva teria subido ao poder por volta do ano 96 AD, promovendo anistia, João teria sido libertado de seu exílio e retornado para sua comunidade em Éfeso, nesse tempo. Seu retorno em vida teria causado comoção e grande especulação na igreja. Isso conduz diretamente ao motivo da escrita do acréscimo. Para Carson, havia a hipótese de que o fato relatado em João 21, e as palavras de Jesus a Pedro acerca do destino do apóstolo amado talvez circulasse pelas comunidades de forma confusa, gerando falso entendimento, tais como a de que ele seria preservado para o momento do retorno de Jesus à Sua Igreja. Desse modo, para muitos, o motivo da sobrevivência do discípulo e sua presença entre eles, enquanto os demais apóstolos já estavam mortos, seria um claro sinal de que ele não morreria sem ver a parousia do Filho do Homem. O escrito, então, teria o propósito de revelar a verdade dos fatos sobre essa tradição, para a igreja.

Apesar de considerar as propostas dos demais como plausíveis, particularmente, prefiro a hipótese do Carson, com base na proposta da autoria joanina e na correção da tradição descaracterizada. O v. 24 revela que havia de fato uma confusão em torno do evento relatado. Não é difícil supor que em resposta a essa suposta tradição, o discípulo amado tenha sido levado a adicionar mais este relato, no qual se esclarece a verdadeira versão da história. Ele busca esclarecer que, na verdade, Jesus não teria prometido sua preservação até o Seu retorno, mas apenas enfatizou que este era um assunto que não era da competência de Pedro, nem de qualquer outro discípulo. O dever de cada um era simplesmente, segui-Lo: “Se eu quiser que ele fique até que eu venha que tens tu com isso? Segue-me tu.” (v. 22).

Ademais, se de fato rondavam tradições espúrias acerca do evento, somente o próprio discípulo amado poderia esclarecê-las a contento, ou então, teria o caráter de mais um boato. O pronome “nós”, implícito no v. 24 pode ser visto como inclusivo, e em todo o livro, em diversas ocasiões o Discípulo amado se refere a si mesmo como uma terceira pessoa. Aqui não seria impossível que o padrão estivesse sendo mantido. Em João 1:14, o autor também usa o “nós”, como inclusivo, se colocando como parte daqueles que presenciavam a “glória” do “Verbo [que] se fez carne”. E somado a isso, só o fato de o mais antigo material já conter esse dito acréscimo, seria argumento a favor de que proveio do punho do discípulo amado. E mesmo que não fosse redação direta, só a ênfase final, onde se encontra a declaração “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (v. 24), serviria como uma assinatura, sendo então um endosso do autor ainda em vida, e por isso, legitimamente apostólico.

Assim, minha conclusão é que nada desabona a proposta de que a redação do capítulo 21 tenha se originado das mãos do mesmo autor que escrevera os capítulos anteriores, embora em tempo diferente.  Esse autor seria assim, o discípulo amado, o apóstolo João, filho de Zebedeu que bem poderia tê-lo escrito (ou assinado) na ocasião de seu retorno do exílio em Patmos, por volta do ano 96-100 AD.

Fontes básicas da pesquisa:

BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento. São Paulo. Teológica.  2004.
CARSON, D. A. O Comentário de João. São Paulo. Shedd.  2007.
CULLMAN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo, RS. Sinodal.  2003.
JOSAPHAT, Carlos. O Evangelho da unidade e do amor.  São Paulo. Duas Cidades., 1964.

KÜMMEL, Georg. Síntese Teológica do Novo Testamento. São Paulo. Teológica.  2005.

Fonte: Crendo e Compreendendo

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Sobre Silvio L. Marcelino

Cristão (Adventista do Sétimo Dia). Tecnólogo em Marketing, Licenciado em História - Atualmente atua como Professor de História.
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